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domingo, 9 de maio de 2010

Fazenda Jatobá - Uma tarde com Santa e Napoleão Santa Cruz



















Aniversário na Fazenda Jatobá
Marcos Cordeiro

Eis-me aqui, eis-me além.
Bem além do tempo avaro.
Precisamente no centro
da sala de visitas
da veneranda casa grande
da fazenda Jatobá.

















Aos poucos, uma a uma,
abro as janelas da sala
e do pensamento
para o pátio, para o tempo,
para o sonho
e para muito mais além.
Bem mais além do engenho
nos seus dias de moagens
quando era de fogo vivo.

Aberta a porteira do tempo
dou asas a historia e ao pensamento.
Ante a lembrança solene
dos tios da minha mãe:
Santa e Napoleão.
Contrito e respeitoso,
peço-lhes a benção.
Ereto, beijo-lhes as mãos,
e invoco-lhes a ressurreição.

Pelas janelas e frestas do telhado sibilante
sorrateiras vozes chegam junto a mim.
Atento, sinto a carícia do vento na minha pele.
Mais atento, ouço outras vozes
vindas talvez do jardim ou da cozinha.
Em festa, conversam almas
nessa tarde luminosa na Fazenda Jatobá.

Entre elas também a voz do vento.
Do vento norte
prosando com outros ventos.
Os ventos do Cariri,
no sertão Paraíbano
que às tardes, todas as tardes,
costumam rodopiar,
tocando chocalhos e flautas
e brincando de barra bandeira
após entrarem de porteira adentro,
sobre casas, baraúnas e lembranças.

Reencarnados de memórias ancestrais
ei-los de volta renascidos
de arquivos orais e fotográficos.
Junto aos ventos e as lembranças,
amigos emigrados do mistério
surgem e se apeiam junto ao pensamento,
aos marquesões da sala, nos quadros
e nos porta-retratos.

Após galgarem os degraus do tempo
Eles nos trazem o ontem para um hoje
cada vez mais hoje e cada vez mais vivo
de um dia de sol e prazerosa brisa
junto a dona Santa e ao Major Napoleão.
Com eles também apeiam seus cavalos,
ajaezados de selins, selas e silhões,
muitos parentes, amigos e compadres:


















Coronel Sizenando Raphael do Feijão,
Coronel Sátiro Feitosa do Ribeiro Fundo,
Coronel Manoel Joaquim Raphael do Engenho Velho,
Coronel Chico Cândido do Limão,
Capitão Cirurgião Amaro Lafayette da Barriguda,
Coronel Joaquim Lafayette do Pau d`Arco,
Coronel José Gomes dos Santos da Caiçara,
Coronel Francisco de Torres da Carnaíba,
Nestor Bezerra da Monconha,
Major Inocêncio Almeida de São José dos Cordeiros,
Marcolino Mayer de Alagoa do Monteiro,
João Ferreira Gomes da Cacimba Nova
Coronel Paulino Raphael da Varzinha,
e os sobrinhos Tércio, Manoel Sobrinho e Andrelino.

Abençoando todos, as reverendas lembranças
de Padre Arthur Cavalcanti, Cônego Rodas
e Dom Joaquim Antônio de Almeida.

Na porta entreaberta do mistério
O Major Napoleão Santa Cruz os recebe
com a cortesia ancestral da sua casa.
Junto a ele Sinhá Dona Santa
reticente e atenta a todos cumprimenta:

Compadre Sizenando, como vai Comadre Maria?
Quando será a próxima missa no Feijão?
Compadre Sátiro, como passa Comadre Joaquina?
Compadre Manoel, como está Comadre Antônia?
Como vai Mariquinha no Colégio das Damas no Recife?
Compadre Chico Cândido, como estão Comadre Inês e Djanira?
Compadre Joaquim Lafayette, como está Comadre Sebastiana?
Como estão Alda e Adail?
Compadre Amaro Lafayette, como vai Comadre Titia?
Já tomei o Elixir de Antipyrina e fiz as lavagens com ácido phênico.
Meu querido pai, como estão todos lá em casa na Caiçara?
Fale-me de Felismina, de Nana e José Augusto...
Compadre Chico Torres, como está minha irmã Philó?
Compadre Nestor, como deixou Comadre Ana?
Compadre Inocêncio, como está Comadre Olindina e os meninos?
Compadre Marcolino, como deixou Comadre Lídia?
Aquele seu menino Luizinho ainda gosta de brincar de ser juiz?
Meu compadre e irmão Janjão, como tem estado Comadre Áurea?
Compadre Paulino, como está Comadre Dona e Theonas?
Compadre Tércio como se encontra Theonas Nunes e as crianças?
Compadre Manoel Sobrinho, como está minha Leonila e José?
Compadre Andrelino, me fale de Theonila...

Estão todos bem, estão todos com saúde.
Nos retratos da parede ou no álbum,
na varanda ou no curral,
na cozinha ou no engenho.
Estão todos vivos,
estão todos aqui vivendo dentro de nós.

No jardim ao lado as crianças ressurgem.
Em ciranda dão-se as mãos com os primos:
Rodolfo, Cornélio e Sebas.
Alice, Tonha e Hermínia.
Maroca, Nina e Dorinha.
Toinha, Icília, Carminha e Lousinha.
Iaiazinha, Iraci e Chiquinha.
Anunciada, Carmelita e Toti.
Adalgisa, Francisquinha e Lucila.
Nita, Carminha e Lourdes.

Maura, Maria do Carmo e Assunção.
João, José e Darcílio.
Isauro, Carminha e Sebastião.
Jaime, Ferreira e Jonas.
Elísio e Ferreirinha.

- Dona Santa!
- Tia Santa!
- Mãe Santa!
- Comadre Santa!
- Madrinha Santa!
- Sinhá Santa!

São vozes que vêm de longe.
Talvez da cozinha, do curral, do pomar ou do céu:

- Major Napoleão, a vaca Melindrosa
deu hoje quinze litros de leite! Dona Santa vai gostar...

- Padrim Napoleão, o garrote raçado, fio de Mimoso,
furou a cerca e está danado na palma...

- Vão dizer a Santa... ela é que sabe o que fazer...

- Madrinha Santa, quantas galinhas é para matar?

- Mãe Santa vai mandar queijo para tio Vitor, Zulmira e
Nenem?

- E a qualhada escorrida de tio Olímpio e tia Jove?

- E as garrafas de mel de Doutor Deocleciano Pereira Lima?

- O capão do Cônego Rodas também vai hoje?

- Vão sim! Vão tudo hoje!
Aproveitem o carro de Compadre Andrelino...

- Major Napoleão, quanto dá nesse cavalo pedrês?

- Não dou nada não: Cavalo pedrês ou sarará, nunca prestou nem prestará...

- Padrim, esse daqui é da raça dos cavalos do Coronel Tércio do Morcego...


















- Major, esse daqui tem sangue árabe
dos cavalos do Coronel Nozinho da Coruja
e do Major Possidônio Gomes do Riacho do Mel...

- Quero! Quero todos menos o pedrês!
Mas, não vão dizer para Santa
quanto paguei...

- Bom dia Dona Santinha, como vai a senhora?
- Como bem vê, aqui na cozinha, feito uma negra escrava,
cozinhando para esses ladrões que vêm roubar Napoleâo...

- Moleque, por quanto Napoleão comprou aquele cavalo
ao vendedor de Sumé?
- Num sei não, sinhá Santa...
- E aquele garrote zebu?
- Num sei não, madrinha... Eu juro...
- Se você estiver mentindo moleque, prepare o lombo...
- Tô não madrinha Santa... Tô não...

- Zé Marcolino chegue cá!
- Pois não madrinha Santa!
- Vá lá para a sala da frente cantar a toada do boi Enganoso para Napoleão!
Vá animar um pouco o seu coração...
- Vou sim, Madrinha Santa! Vou agorinha!

- Ô Mãe Santa! Quem é essa tal de Posteridade que Seu Crispiniano Neves
toda vez que vai tirar um retrato, como fez com o Prefeito seu Luiz Leite,
diz: Para a Posteridade! Para a Posteridade!
- Ô menino para gostar de fazer perguntas! Quando você crescer você saberá...

- O queijo está pronto!
- O cuscuz está servido!
- A coalhada está posta!
- O café está passado!
- O bolo está assado!
- O leite está fervido!
- Os ovos estão fritos!

Cheiro de café quente, cheiro de queijo quente.
Cheiro de xerém quente, cheiro de leite quente.
Coalhada nova com raspa de raspadura ou com mel
de abelha ou de engenho, de mandassaia ou da tacha.
Também tem branco alfenim com a batida dourada
com queijo branco de coalho ou requeijão de manteiga.

Doce cremoso de leite!
Doce azulado de batata!
Doce de mamão verde!
Doce de coco maduro!
Bolo de caco, de trigo,
Bolo de goma e de massa.

Caro major Napoleão, aqui viemos trazer
para vós alegria e para Dona Santa prazer.
Nesse vosso aniversário, umas nossas lembranças...
Da nossa parte vos damos calorosas saudações
de nossos filhos e parentes os fraternos cumprimentos:


- Do Feijão venho e vos trago
um garrote que chamo de Boi de Ouro.

- Do Ribeiro Fundo venho e vos trago
o carneiro Sertãzinho.

- Do Engenho Velho venho e vos trago
dez capões da cor do sol.

- Do Limão venho e vos trago
cinco perus e dez patos verdadeiros.

- Da Alagoa de Baixo venho e vos trago
dez latas de doce “Samaritana”
e vinte garrafas do licor “Pipermina”.

- Do Pau d´Arco venho e vos trago
três cabritos bem capados.

- Da Caiçara venho e vos trago
queijos feitos por Honorata .

- Da Carnaíba venho e vos trago
nhambus-pés e outras caças.

- Da Cacimba Nova venho e vos trago
cinco marrãs "bergamascas".

- Da Varzinha venho e vos trago
um potro raciado com o vento.

- Do Morcego venho e vos trago
dez caçuais de bananas e mangas.

- Do Serrote da Vaca Morta venho e vos trago
oito marrãs raciadas com moxotó.

- Da Mata Verde venho e vos trago
jerimuns e melancias.

- Não precisava essas jóias, não precisava essas oferendas.
De vosmecês as presenças são as melhores prendas.

Por essa data festiva,
Por esse dia meritório.
A todos vos ofereço
nossa casa, nossa glória.

Após nossa comunhão
dada por Dom Joaquim,
aos pés do Nosso Senhor,
aos pés de Nossa Senhora.
Damos graças e louvor
por contarmos a nossa história.

Venham todos, venham todos,
venham todos com prazer.
Vamos sentar à mesa
e o sertão saborear.
Das mãos ditosas de Santa
para vossas senhorias,
os mais gostosos quitutes,
as melhores iguarias:

Buchada e sarapatel,
peru assado e capão.
Coxão de porco com mel,
mão de vaca com pirão.
Costeletas de cabritos,
tripa assada com limão.

Carne de sol na manteiga,
arrumadinho de feijão.
Carneiro gordo e rabada,
pato assado com melão.
Doce de leite e batata,
de banana e de mamão.

Agora para rematar,
que tal um bom café?
Chegado lá das alturas
da serra de Jabitacá.
Torrado com raspadura
e pilado com amor
num dia bem venturoso
de Santa e Napoleão
na Fazenda Jatobá.




























2 comentários:

  1. Que delicia!!!!!!! Meu Deus, até eu que pouco conheci deste "mundo" lembro de tudo....que resgate maravilhoso. Primo vc é o MAXIMO! ADOERI mesmo. Mamãe conhece?

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  2. Ah Marcos, querido guardador de memórias, uma maravilha essa tarde com tia Santa e tio Napoleão, que, graças a Deus, cheguei a conhecer!
    E nossos passeios ao Jatobá eram simplesmente inesquecíveis, apesar de terem acontecido quando pequenina, ficaram gravados para sempre. Durante a leitura me parecia estar presente nas comemorações daquela festa de aniversário, brincando de biriana e calçadinha de ouro com Doinha e Lurdinha de Maroca, com Darlinho de Maria do Carmo, Cleide de Darcílio, Carlinda, Conceição e Aparecida de Alice. Achando graça nos ditos de tia Santa, me metendo nas conversas, levando carão: "êta minina inxirida e endemunhada". Sem falar no maravilhoso café, tradicional de nossa família, ainda hoje!
    KK

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