11129278

11129278

terça-feira, 14 de abril de 2009

Joaquim Raphael de Freitas - Poeta/Historiador de Jabitacá


















8- Antologia de Poetas Pernambucanos


Joaquim Raphael de Freitas - Quincas Raphael




Aboio de Ubiratan da Pedra - PE

...................

MINERVINO


Homenagem de Quincas Raphael

Quando a pessoa nasce
Jesus traça seu destino:
Uns para morrer na velhice
E outros quando menino.
O que espera a quem vive
É a pancada do sino.

A morte de Minervino
Hoje a mim abalou,
Apesar da sua idade
Muita saudade deixou.
Foi ele o maior vaqueiro
Que o Pajeú criou.

Falo aqui por Gonçalo
E Severino Elesbão,
Zé Rocha, Antônio Lourenço,
Bete, Zé Torres e João.
E finalmente por todos
Que já vestiram gibão.

A sua recordação
Ficará eternamente,
Pois não encontrou vaqueiro
Que tomasse a sua frente.
Da marca de Minervino
Não existe mais semente.

Nunca temeu boi valente,
Nem o cavalo ligeiro.
Pela sua honestidade
Nunca lhe sobrou dinheiro.
Eu penso que Minervino
Já nasceu sendo vaqueiro.

Sua fama de vaqueiro
Somente a morte tomou.
Foi o Pelé dos vaqueiros
Enquanto aqui campeou.
Eis o nome dos cavalos
Que Minervino açoitou:

Barroca e Violão,
Maribondo e Barbadinho,
Testa de Aço e Pintado,
Casuleta e Garrinchinho,
Teve o Pedrês enjeitado,
O Corneta e o Gatinho.

Foi vaqueiro no Morcego,
Varzinha e Poço Cercado.
Lá no Riacho do Mel
Deixou seu nome gravado,
Santa Teresa e Tingui,
Duas barras e Taboado.

Pegou boi apadrinhado
Até lá no Moxotó.
Na frente de seu cavalo
Não valia catimbó.
Muita gente até dizia
Que ele não corria só.

Hoje são poucos vaqueiros
Que com ele trabalharam.
Pois a maioria deles
Há tempo se acabaram.
Porém os vivos que restam,
Muito por ele choraram.

Receba as condolências
Da família Raphael
E também Dr. Zé Câmara
Que cumpre o mesmo papel
E ainda Inácio Augusto
Que era amigo fiel.

Fiz este com humildade
Em homenagem ao vaqueiro
Que foi o maior em tudo
No meu Pajeú inteiro.
Por onde passou deixou
O rastro de um cavalheiro.

Este verso ficará
Como uma recordação.
Porque fala do maior
Vaqueiro do meu sertão.
Que até em honestidade
Não teve comparação.


Do seu Livro Afogados Deu de Tudo – Gráfica Mascote – Joazeiro do Norte – CE.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Conceição da Pedra - Seus poetas e sua gente - 2














.......................................................................................................................................................
Casa da Sra. Adalgisa Japiassu -
A última casa antiga da Pedra

Conceição da Pedra - Pernambuco
Seus poetas e sua gente - 2

Ubiratan e Pintor "in aboio" no Bar de Gildo - Pedra - PE

PEDRA E SEU SISTEMA REGIONAL


BEM HUMORADA CRÔNICA DE UMA ÉPOCA

de
Juvenal Barbosa Cavalcanti
1

Pedra de gente nobre
Cortês, humilde e feliz.
Do velho José Diniz
E Budá matando os pobres.
Eu sei que a turma encobre
O lado do desprazer
E continua a sofrer.
É bem franco o seu futuro,
Isso aí eu também juro
Que na Pedra ninguém vê.

2

Valença baixar o bucho,
O velho Orestes engordar,
Dadi velho se casar,
Chiquinho de Branca ter luxo,
Ataíde errar cartucho,
Nem Joelzinho crescer,
Pio deixar de beber,
Ismael adorar Santo.
Essas coisas eu garanto
Que na Pedra ninguém vê.

3

Franqueza de Ananias,
Simpatia em Laudemiro,
Beleza em Cassimiro,
Toinho sem freguesia,
Anália sem grosseria,
Antônio de Amado com prazer,
Elias Ferreiro fazer
Um serviço de futuro.
Essas coisas eu também juro
Que na Pedra ninguém vê.

4

Julieta sossegada
Jonas sem dar notícia,
Dioclécio sem polícia,
Helciza ser casada,
José Pessoa em vaquejada,
Gentil Mariano beber,
Nem Zé do Leite fazer
Uma farra para amigo.
Essas coisas eu também digo
Que na Pedra ninguém vê.

5

Zé Tampinha andar cheiroso,
Humberto ser verdadeiro,
Baga ser bom pedreiro,
Genésio ser caridoso,
Wilde ser corajoso,
Gobira sentir prazer,
Ofélia Neiva dizer
Sou boa de simpatia.
Isto eu juro todo dia
Que na Pedra ninguém vê.

6

Seu Elias deixar casada,
Zé Cardeal ser vistoso,
Waldemar não ser vaidoso,
Abdon esquecer chuvada
E olhando a nuvem chover,
José Maria não prometer,
Luizão vender barato.
São coisas que eu relato
Que na Pedra ninguém vê.

7

Arlindo pagar bicada,
Macaca ter paradeiro,
Virgílio cantar toada,
Artur tangendo boiada,
Zé Bolinha envelhecer,
Filho de Xavier nascer,
Juvenal deixar de rimar.
Eu também posso afirmar
Que na Pedra ninguém vê.



Pedra, Semana Santa de 2009.



quinta-feira, 9 de abril de 2009

Conceição da Pedra - Seus poetas e sua gente - 1










..................................................................................................................................................................

Conceição da Pedra - Pernambuco

Seus poetas e sua gente - 1



Pintor e Édio no Bar de Gildo

...................

José Firmo Cavalcanti

................

NATAL
................
Cantam sinos além na velha ermida,
A natureza ri, o céu reluz;
Louva-se a doce Virgem concebida
Que o bom filho de Deus trouxera à luz.
..........

Exemplo de humildade indefinida,
Pobre e pequeno quis nascer Jesus;
Não teve um berço Aquele cuja vida
Findou por nós nos braços de uma cruz!
..........

E a partir dessa data aos nossos dias,
Nascem filhos de reis por toda a terra
Em berços feitos de ouro e pedrarias...
........

Entretanto, jamais nascera alguém
Que achasse glória igual à que se encerra
No que nasceu nas palhas de Belém!


...........

Marcos Ademar de Siqueira
...........
PEDRA – AMOR DISTANTE

(O Poeta dedica a sua querida terra natal Pedra-PE)

No Vale do Ipanema encravada,
Nas divisas do agreste e do sertão
De Pernambuco és o coração,
Para teus filhos, mãe sempre adorada.

PEDRA. Assim é que fostes batizada,
Palavra dura, pra tão meigo chão.
Acolhedora de todos, sem distinção,
Que te buscam para fazer morada.

Teu lajedo - símbolo de grandeza -
Foi esculpido pela natureza,
E dado de presente aos filhos teus...

Ainda no vigor da adolescência
Parti em busca da sobrevivência,
Ausências tantas, jamais um adeus.


Anápolis - GO: abril/2009.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Alcides Lopes de Siqueira



















.......................................................................................

Esther - A eterna musa

.........................

7 - Antologia de Poetas Pernambucanos

Alcides Lopes de Siqueira

O cardo

................

O sol fuzila a prumo. O ambiente escalda.

A atmosfera , em revérberos, semelha

O ar de um forno. A caatinga mirra, engêlha,

Desde os vales - dos cômoros à fralda.

...............

Mas , indene da cáustica centelha,

Nos planaltos, o cardo se engrinalda

E abre a flor de marfim - oferta à abelha -

Implantada nos gomos de esmeralda.

.................

Assim sois vós , humanos corações.

Quando o sol do desgosto, da tortura,

Vos estiola e destrói as ilusões:

....................

Abre sempre, do cardo a semelhança,

A flor nívea do sonho, linda e pura,

Engastada no ramo da esperança.



No Tempo das Maria Fumaças e outros Trens


..........................




No Tempo das Maria Fumaças e Outros Trens Um pouco barulhentas, fumarentas, rapidíssimas para a época, bamboleantes, porém, encantadoramente românticas e langorosas nos seus apitos anunciando chegadas, partidas, ou avisos para incautos transeuntes que se aventurassem a cruzar o seu caminho, como animais, bêbados ou, infelizmente, distraídos e suicidas. Eram elas as donas de todo aquele pedaço estreito do seu comprido leito, do Recife a Salgueiro. Deslizando sobre centenas e centenas de quilômetros de trilhos que se inseriam, uma hora entre túneis, montanhas, morros, vales e desfiladeiros, outra hora sobre colinas, planícies ou pontes ou ainda varando matas fechadas, canaviais, capoeiras, capoeirões e caatingas ou mesmo varando ruas de cidades, arruados ou tão somente margeando um simples vagão, a título de Estação, como em Insurreição em Pernambuco. Eram elas as Maria Fumaças, primeiro da Great Western, depois Rede Ferroviária do Nordeste e na fase final - Rede Ferroviária Federal S/A. Em Pernambuco havia três itinerários: Norte, Sul e Oeste. Todos saindo da Estação Central do Recife. Ao passageiro havia três opções: Norte - Para João Pessoa e Natal, Oeste – Para as cidades da região central de Pernambuco até Salgueiro e Sul – Para Maceió, passando pelo Cabo, Escada, Estação Frexeiras, Ribeirão e Palmares. Catende Maraial e Quipapá, entre outras, no ramal de Garanhuns. Como era de praxe, havia os trens de carga para transporte de equipamentos, carga pesada e animais e os trens de passageiros, que dividia aqueles que fossem viajar nos seus vagões em pobres ou ricos. Tudo de acordo com as posses da cada um. Para os “ricos” ou remediados, havia os vagões mais confortáveis, dotados de poltronas acolchoadas e reclináveis, para frente e para trás – eram os de 1ª Classe. Para os destituídos de fortuna e menos remediados havia os vagões de 2ª Classe com seus bancos duros de madeira, podendo ser móveis ou fixos como os dos vagões apelidados de “pela- porcos”. Tudo isso servia para aguçar a curiosidade das crianças “ricas ou metidas a ricas”, que viajavam em vagões sensivelmente diferentes daqueles vagões da 2ª Classe. Naqueles tempos de poucas estradas e poucos proprietários de automóveis, o transporte principal no Nordeste, e creio que em todo o Brasil, era o ferroviário, graças à visão dos políticos da época que, diga-se de passagem, era mais inteligente, aguçada e patriótica do que a visão dos políticos de hoje em dia, infelizmente. Torna-se quase desnecessário dizer quais os benefícios do transporte ferroviário com relação ao rodoviário. A minha primeira viagem de trem foi em 1952. Eu contava oito anos de idade e foi uma das minhas primeiras realizações na vida. Na companhia do meu tio João Gomes Raphael, tomamos o trem que vinha do Recife, por volta das 18 horas, em Sertânia e fomos até o povoado de Irajaí, então distrito de Afogados da Ingazeira, naquela época parada final da via férrea. Fomos fazer uma visita aos meus tios Anunciada e Nozinho Câmara, que se encontravam de férias com os meus primos, na sua Fazenda Coruja. O trem era o famoso “Trem da Serra”, e para mim foi uma festa, apesar da escuridão, naqueles tempos sem a maravilhosa energia de “Paulo Afonso”. Lembro-me do guarda-freios conduzindo a sua lanterna inglesa de carbureto, verificando as rodas dos vagões e da locomotiva, como também os trilhos nas paradas. Também me chamaram a atenção os lampiões de luz fraquinha nas plataformas das estações de Sertânia, Albuquerque Né e Irajaí. Depois dessa primeira experiência, vieram muitas outras viagens que até hoje recordo com saudades. Quem como eu que sempre viajava no “Trem da Serra”, não se lembra das tapiocas com coco, das exóticas maçãs e uvas, laranjas cravo, bagas de jaca, sapotis e dos sanduíches com pedaços de galinha, mariolas e roletes de cana, vendidos nas estações de Pesqueira, Belo Jardim, São Caetano, Caruaru, Bezerros, Gravatá e Vitória? E o que dizer de um estranho e incrível cheiro que sentíamos a partir de Jaboatão, talvez exalado por alguma planta da Zona da Mata e que chamávamos do “cheiro do Recife”. Quando viajei a 1ª vez para o Recife em 1954, com minhas irmãs e minha saudosa mãe Iraci, os vagões ainda eram de madeira e o leito da via férrea que só era revestido de brita de Caruaru até o Recife, levantava muita poeira. Foi na época das comemorações do Tricentenário da Restauração Pernambucana. Houve muitas comemorações e ainda me lembro que o Governador de Pernambuco era um filho de Sertânia – Dr. Etelvino Lins de Albuquerque. Foi nessa inesquecível viagem ao Recife que tive a felicidade de ver o mar pela primeira vez. Foi uma verdadeira epifania. Foi um momento de revelação e comunhão com o Criador. Com o passar do tempo as locomotivas a vapor cederam lugar às de óleo diesel e os antigos vagões foram substituídos por outros de aço e alumínio, mais modernos e confortáveis e toda a linha férrea foi revestida de brita. Até os da 2ª classe melhoraram. Esse trem mais moderno foi denominado de Asa Branca em homenagem à música famosa, a Luís Gonzaga e ao Nordeste. Naqueles tempos, todos viajavam de trem, principalmente as pessoas doentes que iam para centros mais adiantados em busca de tratamento e cura para seus males. Também os rapazes e moças que estudavam nos colégios de Pesqueira, Caruaru e Recife. A viagem em si já era um acontecimento. Quando crianças, tanto eu quanto as minhas irmãs sempre viajávamos com nossa mãe que ia fazer compras para renovar o estoque do seu atelier de bordados e a sua lojinha de produtos de armarinho e sempre ficávamos hospedados na casa do meu avô Manoel Raphael Sobrinho em Tejipió e, anos depois, na casa da tia Carmelita Raphael Leite na Iputinga. Essas viagens eram verdadeiros piqueniques móveis. Mamãe preparava saborosos lanches de galinhas de capoeira com farofa de bolão, sanduíches de queijo e carne de sol, bolos e doces para aquela “épica” travessia do sertão ao cais. Para nós, era uma verdadeira aventura. Tempos depois, já rapaz e estudando no Recife, época em que morei em algumas pensões da Rua do Paissandu e depois na Casa do Estudante de Pernambuco, a exemplo dos muitos colegas do interior, mesmo já havendo ônibus, passei a utilizar muito aquele transporte, que tanto nos marcou, creio que para sempre... Nessas idas para Sertânia, foram inúmeras as vezes que eu e os meus primos Rafael Fernando e Paulo Lins, Dilson Siqueira, Mário Lafayette, Raulzinho e Walter Lafayette e muitos outros colegas da Casa do Estudante, na ânsia de viajar, íamos logo na véspera à noite para o Bar da Central. Lá entre muitas cervejas e o canto de Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Anísio Silva, Silvinho, Roberto Luna, Agostinho dos Santos, Caubi Peixoto, Carlos Alberto, Lindomar Castilho e Núbia Lafayette, entre outros, que saia da radiola de fichas, ficávamos bebericando até a hora da partida do trem. Dependendo do álcool consumido, muitos dormiam até o fim da viagem. Início e fim das férias de junho e de dezembro e festas importantes como a do dia 8 de dezembro – festa de N. S. da Conceição, Natal e Ano Novo, Carnaval, o Aniversário do América Esporte Clube de Sertânia, o Sete de setembro, eleições e outros eventos importantes ou qualquer um feriado longo, tudo era pretexto para viajarmos. Era principalmente nessas ocasiões que dezenas e dezenas de jovens estudantes utilizavam o saudoso Trem da Serra. Já instalados nas poltronas e após a partida do trem, quem quisesse se dirigia logo para o vagão restaurante. Era uma festa. Com cervejas, vodcas e outras bebidas, ou simplesmente refrigerantes, tudo muito bem acompanhado pelos violões e vozes daqueles que cantavam, a farra começava e durava até o término da viagem onze horas depois. Eram grandes farras e alguns somente faziam a viagem pensando na bebedeira. Para outros, bastava que tivessem terminado o namoro ou que tivessem levado um fora de alguma moça. Qualquer coisa era desculpa para encher a cara. Naquelas viagens conhecíamos outros estudantes das cidades por onde o trem passava e que também estudavam fora. Muitos daqueles estudantes, assim como eu, eram sócios da Casa do Estudante de Pernambuco. Além dos rapazes, também moças estudavam internas nos Colégios de Pesqueira, Caruaru e Recife. Das que me chegam à memória posso citar: Minha irmã Cacá e minhas primas Ceci e Gracinha e outras moças de Sertânia como as irmãs Socorro e Onilda Maciel, Telma Pinheiro, Gislaine Veras e Marluce Moraes que estudavam no Colégio das Damas, Socorro Laet, Elisa Freire, Ivani Barbosa e Edileusa Oliveira e creio que outras moças estudavam em colégios como: N. S. do Carmo, São José, Eucarístico e Agnes. Nessas viagens, muitas amizades, namoros e casamentos tiveram início ou término. Crises de ciúmes também, não raro aconteciam. À medida que o trem ia se aproximando do destino, no meu caso, Sertânia, a emoção ia aumentando. A certeza ou incerteza de que uma namorada ou candidata estaria à espera na Estação, fazia o coração bater mais apressado. As moças retiravam os lenços dos cabelos e retocavam a maquilagem, enquanto os marmanjos tentavam pentear os cabelos um tanto duros de poeira. Quando a composição chegava a um local já próximo da cidade e denominado “Apito”, onde a locomotiva dava o sinal de que já estava chegando, todos mal conseguiam controlar a emoção até o desembarque. Era demais. Era uma festa. A Estação repleta de amigos e parentes à espera dos “estudantes de fora”. Abraços, beijos e sorrisos rolavam sem limites. Empoeirados e felizes, transportando nossas bagagens, algumas vezes ajudados pelo empregado da estação com uma carroça de mão, atravessávamos as ruas de nossa cidade, nos dirigindo para nossas casas com a certeza de que a vida, naquela época, era uma maravilha como de fato o era para nós, jovens, saudáveis e amados por nossos familiares ou por nossos amores de juventude.

sábado, 4 de abril de 2009

Alberto da Cunha Melo - Antologia de Poetas Pernambucanos

..............................................................















...............................................................................




Antologia de Poetas Pernambucanos

6 - Alberto da Cunha Melo
.................................
Anáforas
...................................
A palavra sabe doer,
quando esfria o sangue no rosto,
assim de surpresa, navio
atropelando o próprio porto;
..............
sabe degolar a sereia:
chamar de gorda a mulher feia;
.......
sabe emudecer os aplausos
que aconteceram anteontem,
depois de décadas de atraso;
......
sabe matar pelo distrito,
sem deixar marcas do delito.
..........
DEPOIMENTO
..................
"Um de nós sente tanto medo,
abre tanto os pequenos olhos,
que consegue ver e chorar
a mais longínqua ingratidão"
.......................


Conheci Alberto na década de 60 quando da publicação do seu livro Círculo Cósmico. Porém, foi somente na Fundação Nabuco, onde fui trabalhar como Programador Visual, que eu passei a conhecer e a conviver mais intensamente com ele e com muitos outros poetas seus amigos. Colega de trabalho e até mesmo adepto dos mesmos ideais estéticos e políticos, passei a conviver com muitos intelectuais que trabalhavam na Fundação como: Mauro Mota, Mário Souto Maior, Valdemar Valente, Raquel Caldas Lins, Sebastião Vilanova, Renato e Maximiano Carneiro Campos, Frederico Pernambucano, Clóvis Cavalcanti, Roberto Aguiar e, é claro, o mestre Gilberto e o seu filho Fernando Freyre. Além desses escritores e pesquisadores famosos, a Fundação também abrigava nos seus quadros muitos outros escritores jovens como Jaci Bezerra, Sérgio Bernardes, Arnaldo Tobias - editor do jornal alternativo "Protesto", Sérgio Moacir de Albuquerque e outros. Com eles, então, passei a frequentar os mesmos locais que eles pontificavam, além de outros poetas como Domingos Alexandre, Ângelo Monteiro, José Mário Rodrigues, Antônio Leal, Almir de Castro Barros, Montez Magno e outros que também marcavam as suas presença para animados bate papos, discussões políticas e muita poesia regada a cerveja e chope, como a Livro 7, o Bar Mangueirão em Apipucos, o Bar do Posto de Gasolina e o Bar O Pirata em Casa Forte, o Bar do Maruim no Poço da Panela, o Bar Beer House da Rua 7 de Setembro, o Bar Mustang, o Bar da Livro 7 e em muitos outros do centro do Recife. Foi precisamente nesses lugares onde mais eu convivi com a bondade, o humanismo, a humildade e o talento de Alberto da Cunha Melo. Com ele aprendi a ser mais humano e humilde e, pasmem, aprendi a escrever poesia, pois segundo ele dizia: eu já a sentia nos meus quadros e desenhos. Posso explicar: nas muitas vezes que nos encontrávamos em qualquer um desses bares, juntamente com Roberto Aguiar, (de saudosa memória), Jaci Bezerra, José Mário Rodrigues, Ângelo Monteiro, Lucila Nogueira, Odete Vasconcelos, Montez Magno, Almir de Castro Barros, Domingos Alexandre, Sérgio Bernardes e Arnaldo Tobias, entre outros, fazíamos, frequentemente, poemas coletivos, a três, quatro, cinco ou mais mãos. Dependendo do número dos presentes que quisessem participar da brincadeira. Cada um deles escrevia um verso. No final havíamos "cometido um poema". Muitas dessas composições eram publicadas por Jaci no "O Punho". Um jornalzinho alternativo, mimeografado, (não havia ainda os computadores de hoje em dia com as suas impressoras magníficas e práticas), e que circulava entre nós. Creio que devem ter sido publicados uns dez números. Todos eles eram também ilustrados por nós mesmos e por muitos artistas plásticos como João Câmara, Montez Magno, Sérgio Lemos, Paulo Bruscky e outros que dividiam conosco a alegria de viver e beber todas, naqueles anos setenta e oitenta. Tempos de muita esperança, alegria, idealismo, amor livre e também de reflexões sobre política e ética, essas últimas já um tanto escassas naqueles dias. Talvez "O Punho" tenha sido a semente do futuro Movimento Editorial comandado por Jaci e que revelou muitos escritores, até então inéditos, para Pernambuco e "para o Mundo"- as Edições Pirata.
Com o fim da Ditadura, vieram as "Diretas já" em todos os níveis. Eleições de democratas e muitos outros acontecimentos, uns bons e outros maus como o encerramento das atividades de Tarcísio Pereira a frente da "maior" Livraria do Brasil, que marcou o fim da efervescência cultural da Rua 7 de Setembro, dispersando então, a maioria dos frequentadores daquela Rua onde se respirava esperança, cultura, amor, liberdade e literatura. Uns mudaram do Recife, outros se aposentaram, alguns morreram e outros renasceram. Felizmente, alguns continuaram se encontrando já em outros bares e livrarias do centro, porém, sem mais a mocidade, o charme e o encanto daqueles anos de resistência intelectual e política ao autoritarismo. Entre esses sobreviventes, estavam Alberto, Domingos Alexandre, Almir, José Mário Rodrigues, Bione e mais alguns novos agregados. Após muitas mudanças nas vidas daqueles que formavam aquela "inteligentzia" da 7 de Setembro, alguns viajaram para outros Estados, como o próprio Alberto que radicou-se por um certo tempo no Acre, outros se retiraram das lides literárias, alguns permaneceram, porém, nunca mais aquele núcleo original voltou a se reunir como antes. Muitos casaram, outros descasaram, outros morreram, outros renasceram não nas academias mas nas suas obras. Porém cada um a seu modo, cada um no seu canto continuou escrevendo e produzindo livros e maravilhas como Alberto que nos deu uma das suas mais belas jóias literárias: Yacala, entre outros.
Meu Deus, Tupan, Zeus, Júpiter, ou outros que possuam outros nomes, falando sobre esses tempos incríveis das décadas de 70, 80 e parte dos anos 90, com todos esses personagens com os quais convivíamos, quase diariamente, como muitos deles já passaram para o outro lado, para a Espiritualidade, tais como: W. Virgolino, Hermilo Borba Filho, Roberto Aguiar, Mano Teodósio, Renato e Maximiano Carneiro Campos, Mauro Mota, Mário Souto Maior, Orlei Mesquita, Sérgio Moacir de Albuquerque e o nosso grande poeta Alberto da Cunha Melo, entre outros.
.............................

José Alberto Tavares da Cunha Melo, nasceu em Jaboatão - PE, no dia 08 de abril de 1942. Filho do poeta Benedito da Cunha Melo, iniciou sua vida literária em Jaboatão, fazendo parte do Grupo de Jaboatão, que de acordo com o historiador Tadeu Rocha, constitue o núcleo original da Geração 65 de Escritores Pernambucanos.
...........................

Livros publicados:
...........................

Círculo Cósmico - 1966, Oração pelo Poema - 1967, Publicação do Corpo - 1974, Dez Poemas Políticos - 1979, Noticiário - 1979, Poemas à mão Livre - 1981, Soma de Sumos, 1983, Poemas Anteriores - 1989, Clau - 1992, Carne de Terceira com Poemas à Mão Livre - 1996, Yacala - 1999, Yacala - 2000, Um Certo Louro do Pajéu - 2001, Um Cert Jó - 2002, Meditação sob os Lajedos - 2002, Dois Caminhos e Uma Oração - 2003.
............................

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Monteiro - Paraiba








Monteiro da minha mãe!


Sempre que vou a minha Sertânia, vou a Monteiro também! Por quê? Porque, hoje, as melhores atrações daquela que já foi uma das cidades mais agradáveis e graciosas do sertão do Moxotó, não estão lá e sim na sua vizinha paraibana – Monteiro. Dar um passeio em Monteiro para dançar forró nas inúmeras festas de ruas ou ir almoçar num dos restaurantes da cidade, na Extrema ou na Pedra do Peru - de Assis Martins, ambas na sua área rural, é um verdadeiro regalo. Do cardápio ao atendimento.
Sair de Sertânia já é uma verdadeira graça, para não termos que ficar observando o seu pobre casario de fachadas tristes e feias, porque descaracterizadas e substituídas por grades, garagens de carros e outras alterações permitidas pela ausência de um Plano Urbanístico que preserve a estética e o estilo arquitetônico, de raízes clássicas, do seu antigo núcleo histórico – Rua Amaro Lafayette ou Rua “Velha”, a antiga Praça Martins Júnior, a Rua Dr. Raul Lafayette e a Rua Benjamin Constant, para citar só essas. Pelo menos que se preservasse o centro histórico original da Rua Amaro Lafayette. Ali onde nasceu Sertânia. É mesmo um lamentável atestado de desprezo pela História e pela cultura da outrora Princesa do Moxotó.
Qualquer cidade, por mais modesta que seja, deve preservar o seu Patrimônio Cultural, seja ele arquitetônico ou imaterial, naquilo que ele tem de mais representativo, igrejas, casarões e outros monumentos dignos de nota. No caso de Sertânia verificou-se além da destruição da antiga matriz de N. S. da Conceição, de estilo colonial, e dos coretos das Praças, a construção de imóveis em plena via pública como na Rua Francisco Sales e absurdas construções sobre pilotis nas calçadas. Se não houvesse espaço disponível, mesmo assim seria injustificável, porém, Sertânia possui muito espaço para novas construções e para o crescimento do perímetro urbano. Outro absurdo é o tráfego de caminhões e transportes pesados pela área urbana, quando o certo seria a construção de vias que contornassem o centro degradado da, hoje, pobre e desgraciosa Sertânia.
Por isto é que louvo o povo de Monteiro e os seus dirigentes e louvo mais ainda os da cidade de Sumé – ex-distrito de Monteiro, pela preservação dos seus Patrimônios Arquitetônicos. Ambas com ruas limpíssimas, arborizadas e sinalizadas, praças bem cuidadas e com iluminação adequada para destacar e valorizar o seu casario, dos mais bonitos do Cariri Paraibano, e quiçá do Estado, fazem a diferença, com relação à Sertânia, entre outras. Não é que em Pernambuco não exista cidades preservadas. Existe sim. E posso citar algumas delas como Igarassu, Pesqueira, Brejo da Madre de Deus, Floresta, Triunfo e Santa Maria da Boa Vista, entre outras, da Mata, Agreste e Sertão pernambucanos.
Portanto, é sempre agradável para a vista e para a mente, se não, para a sensibilidade, todas as vezes que vou a Sertânia, efetuar, pontualmente, um passeio por uma dessas duas cidades do nosso Estado vizinho, com quem mantenho laços estreitos e afetuosos. Não só culturais, mas, acima de tudo, familiares. Monteiro serviu de berço a minha mãe Iraci e a inúmeros tios, tias e primos que lá residem e dão continuidade aos nomes de nossas família Gomes dos Santos e Raphael naquela parte da Paraíba. Lá passei férias e participei de muitas festas e reuniões familiares e sociais. E tenho certeza, ali deixei uma parte de mim mesmo que até hoje exerce sobre o meu sentimento uma atração especial por aquele pedacinho da Paraíba. Muitas vezes tenho me interrogado sobre o que ficou, realmente, ali de mim... E hoje, só hoje, portanto, é que descobri: Em Monteiro deixei uma parte da minha infância, da adolescência e da mocidade, quando ali estive em férias com o primo Darlinho Raphael Campelo na casa dos seus avós e meus tios-avós Olimpio e Jove, juntamente com a sua saudosa mãe Maria do Carmo; nas corridas de cavalos em frente da Fazenda Limão, organizadas por um amante do turfe, o Sr. Josa Leite, torcendo por Vingador ou Pagão; nas partidas amistosas de futebol entre as equipes de Sertânia e Monteiro; nos Bailes do Aero Clube; nas festas comemorativas das Bodas de Diamantes de tia Jove e tio Olímpio na cidade e de tia Santa e tio Napoleão Santa Cruz na bela e saudosa Fazenda Jatobá (onde havia as inesquecíveis moagens do velho Engenho de tração animal, hoje de fogo morto) e na soberba festa dos quinze anos de Cleide Lúcia Raphael, filha do saudoso primo-irmão da minha mãe Darcilio Gomes Raphael; nas visitas às casas dos tios-avós João Ferreira Gomes e Áurea Raphael Gomes, Vitor e Zulmira Gomes dos Santos e ainda as dos primos Rodolfo e Toinha Santa Cruz, Oscar Neves e Maroquinhas Santa Cruz Neves, Inácio Feitosa e Alice Santa Cruz Feitosa, Louzinha Gomes Torres, Theófila Gomes e em tempos mais distantes as casas dos tios Carmelita Raphael e Luis Leite Soares – Ex Prefeito de Monteiro, e a minha tia-avó Felismina Gomes dos Santos.
Por tudo isso e pela memória oral dos feitos e exemplos de membros da nossa família, pelo lado materno, como o meu bisavô Coronel José Gomes dos Santos, da Fazenda Caiçara, o meu avô Manoel Raphael Sobrinho, comerciante e fazendeiro, o tio-bisavô Coronel Manoel Joaquim Raphael da Cruz, comerciante e fazendeiro, Coronel Cizenando Raphael de Deus, da Fazenda Feijão – Ex Prefeito de Monteiro, Coronel Paulino Raphael e Andrelino Raphael de Deus da Fazenda Varzinha, todos pioneiros ali naqueles sertões da Paraíba e de Pernambuco, é que eu, minhas irmãs e primos de Sertânia nos sentimos se não filhos, pelo menos netos da querida Paraíba do Norte de minha querida e saudosa mãe Iraci Gomes Raphael de Sousa Cordeiro.